TEMPO DE ENTREVISTAS: Alexia Waagmeester

No mês em que se comemorou o dia da mulher e os olhares mundiais se voltam para as conquistas femininas, antes de entrarmos na quarentena causada pelo Coronavírus e nos depararmos com o princípio de uma crise financeira mundial, conversei prazerosamente com Alexia Waagmeester, na charmosa Amsterdã. Mineira, casada e formada em História, ela vive há 10 anos na Holanda e é especialista em organizar finanças pessoais.

Almoçamos em um aconchegante restaurante, escolhido com bom gosto e olho clínico por ela.

Elizabeth: Conte-me um pouco da sua trajetória de vida.                         

Alexia: Eu sou uma sobrevivente, literalmente. Quando tinha seis meses de idade, fui internada com problemas respiratórios e os médicos esperavam que eu não sobrevivesse ainda bebê e qual não foi a alegria e a grata surpresa de minha mãe quando me encontrou viva e brincando no berço do hospital no dia que ela esperava o pior. Tive uma infância calma, diferente da dos meus irmãos. Por causa de minha saúde delicada, eu não podia brincar livremente, como as outras crianças, e, por isso, ficava muito em casa com minha mãe e fui influenciada pela organização dela com as finanças da casa, sua criatividade e seu talento com pintura e crochê, além de outras prendas, como cozinhar. Com meu pai aprendi a não desistir, lição que uso todos os dias.

Quando você percebeu seu genuíno interesse em fazer bom uso do dinheiro para multiplicá-lo?

Foi na Holanda, trabalhando com idosos. Fiquei curiosa no fato da Holanda ser um  país pequeno e sobrevivente de guerra e, mesmo assim, ser bem-sucedido, próspero em vários âmbitos e rico. Comecei a pesquisar e observar a fundo como eles lidam com o dinheiro e percebi que havia um padrão parecido com o que eu já tinha em minha personalidade, no que se diz respeito a ter reserva de emergência e poupar. Ser econômica eu já era, desde pequena, mas meu planejamento era involuntário, aqui, em geral, eles levam a sério o planejamento direcionado das finanças pessoais. Aprimorei o meu padrão e ele virou estilo de vida.

Existe um padrão comum nas pessoas que são financeiramente equilibradas?

Sim. Essas pessoas sabem o que querem. Não são facilmente influenciadas por terceiros, moda ou comportamentos passageiros. Não são escolhidas, elas fazem escolhas ponderadas e, com isso, sabem lidar muito melhor com o dinheiro.

É notória a diferença entre a nossa cultura brasileira e a cultura holandesa no que se refere à vida financeira. Para você, qual a maior disparidade?

Na cultura brasileira, eu percebo urgência em se viver o dia de hoje sem se importar com reservas, gastando tudo que se tem. Um “deixa a vida me levar”, como diz a música. Se morrer não se leva nada mesmo.

No holandês, em geral, percebo mais preocupação com o bem-estar das pessoas, preocupadas com o a possibilidade de faltar no futuro. Há mais organização e reservas financeiras essenciais.

Como você descreve sua personalidade?

Positiva. Acredito que sempre haverá chances para vencer os obstáculos e, no fim, vai dar certo. Através de boas escolhas, fé em Deus e bons amigos, as batalhas dessa vida se tornam mais brandas.

Você tem algum hábito diário que lhe é peculiar ou que teve de ser inserido no seu cotidiano, que faz com que sua vida enriqueça?

Sim, toda noite faço uma agenda detalhada do meu dia seguinte, tanto dos compromissos profissionais como dos privados e tempo direcionado a eles. Com isso, não perco tempo, pois tempo é dinheiro!

Ao olhar para você, vejo uma bela mulher, que transmite segurança, equilíbrio e organização. É isso mesmo?

Sim, é isso mesmo (risos). Obrigada! Em relação ao equilíbrio, tenho aprendido cada vez mais a mantê-lo, mesmo nos momentos em que, como todas as pessoas, vêm uma dúvida ou alguma incerteza, respiro fundo e sigo adiante, sempre esperando o melhor da vida.

Os livros, os vídeos nas redes sociais do tipo ”passo a passo“, ensinados para organizar as finanças de alguém, funcionam de verdade?

Funcionam, sim, mas, se na sua mente não houver um comando específico pessoal para a mudança, nada acontece. Você realmente vai precisar de um bom profissional para te ajudar no “pontapé” inicial.

Você acredita que o modelo mental financeiro em uma cultura repetido por centenas de anos pode ser alterado?

Eu acredito que sim. Com a boa informação, acontece a influência, é um processo lento, mas que gera bons resultados, inclusive na nossa própria cultura já percebo sinais de mudanças na nova geração, as mídias sociais também têm um papel importante nesse processo.

“Dinheiro”: que emoção te causa essa palavra?

A emoção da liberdade de escolhas.

Consumismo x Minimalismo:o que você diz a respeito?

Consumismo, para mim, significa preocupação em preencher lacunas existenciais mais profundas. Pessoas que se submetem a compras exageradas ou compram somente pelo fato dos artigos estarem mais baratos, sem haver genuína necessidade. Isso é bem preocupante. Minimalismo, para mim, tem a ver com a conscientização universal. Está também relacionado com a preservação do meio ambiente, de todas as espécies, e também com o uso consciente das reservas naturais. É um movimento que deve ser levado a sério. Eu não sei se sou minimalista, mas consumista eu realmente não sou. Sou adepta da maneira essencialmente simples de se viver.

Muito se fala do empoderamento feminino. O que é ser uma mulher empoderada?

A mulher empoderada é aquela que conhece o seu valor na sociedade e sabe que, se unindo a outras mulheres, a sua voz será mais rapidamente ouvida. É a mulher que descobriu que não precisa ser dominada e dirigida por um homem ou outra mulher. Para mim, não tem muita relação com a aparência exterior, como muito se fala nas mídias sociais. É bem mais profundo, tem a ver com tomar as rédeas da própria vida e cuidar do seu futuro.

O que você gosta de fazer para relaxar?

Entre outras coisas, relaxo caminhando na natureza, encontrando queridos amigos  e cozinhar.

Você pode nos dizer algo inspirador que nos motive a prosseguir nas realizações pessoais financeiras?

Claro! Saiba o que realmente te faz feliz. Seja um planejador na utilização do seu dinheiro, independentemente dos seus projetos, se são de curto, médio ou longo prazo, assim a chance de satisfação e sensação de dever pessoal cumprido é certa.

Muito obrigada.

Por Elizabeth Pessoa

Comentários

mood_bad
  • Ainda não há comentários.
  • chat
    Adicionar um comentário